quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

DESEJO CRÓNICO #1

Desejo crónico*

Habituar-me a habitar-me

Primeiro, as aranhas. Imagino uma banheira cheia de água e o meu corpo inteiramente imergido, à exceção da cabeça que, de fora, vigia tudo, distante e relaxada. É um banho, só isso, e a água jaz quente, uterina. De súbito, reparo numa aranha que pousa sobre a água, e isso perturba-me. Não tocou a minha pele diretamente, mas uma água que, de facto, figura como uma extensão de mim, um prolongamento epidérmico. Há, por assim dizer, uma pele da água que inscreve, aumentando, a potência topológica do meu corpo, deste invólucro de pele que me singulariza e me torna evidente, uma abertura e, em simultâneo, um ecrã. A aranha pousa, portanto, também sobre mim, porque entre mim e a água emergiu essa terceira pessoa, um espaço de tensões e nervosidades que me faz crer que o meu corpo é ainda maior do que aquilo que imaginava. Talvez seja isso a alma ou a iluminação de um sentido profundo, qualquer coisa que, para sentir que existe, não se sabe dizer o nome.
O exemplo da aranha é uma imagem de José Gil, filósofo português. Ocorre a meio do livro Movimento Total. O Corpo e a Dança (Relógio D’Água, 2001), que, como o título sugere, explora a dimensão performativa dos corpos e dos gestos. De que forma é isto – aranhas, perturbações, corpos, dança – relacionável com o projeto “Inscrição”, que se pretende desenvolver em torno do livro Portugal, Hoje: O Medo de Existir, do mesmo autor? Inscrever, refere José Gil, significa produzir real: um determinado evento inscreve-se no real se devir acontecimento, se possibilitar a comunicação entre os indivíduos de tal forma que o discurso os afeta, os transforma e lhes aumenta a potência de vida, o conatus de Espinosa. Inscrever consiste em dar à visibilidade e à imanência daquilo que somos – corpos percetíveis em ação num espaço sensível comum (a casa, a rua, a praça pública, a sociedade) – uma iluminação que não ofusque a (nossa) clarividência, mas que proporcione, ao invés, um sentido de inclusão na vida. É o contrário do medo de existir.
Portugal, sabe-se, enquistou-se ideologicamente com a infinita pequenez do salazarismo. Pensar em ponto pequeno, em reduzidas escalas, prudência cautelosa, resignação servil, instilando o medo de provocar ondas sísmicas num simples copo de água: existir é perturbar o outro, é tornar-me demasiado próximo, constituindo-me como possível ameaça. Ter medo de existir é recear que os meus desejos façam desabar o mundo. Privar-me deles é matar o espírito: o mesmo que encolher os ombros, hoje, perante o telejornal ou saltitar entre as notícias – cortes nas pensões, destruição da escola pública, silenciamento das contestações sindicais, das irresponsabilidades dos governantes… Entre paroxismos e o absoluto descaramento entre aquilo que um político diz e a realidade social que desdiz a palavra do político (imagens-nuas), eis que surge a mais inconsciente forma de não-inscrição: “é a vida!” Como um desabafo inconsequente, um espreguiçar matinal, um café ao fim do almoço: é a vida, sim, mas uma vida que abre um enorme buraco negro sobre a superfície do real, uma “força entrópica”, segundo Gil, que esvazia cada um dos escândalos governamentais do seu punctum de inadmissibilidade. Como um ecrã preenchido por múltiplos brancos, esboços ténues, formas sonâmbulas: “É a vida lá fora, não há nada a fazer, é assim, vivei com paz e serenidade, não há nada a temer, é lá longe que tudo acontece…”
É lá longe… o meu corpo, já ali (jaz ali), na superfície embaciada do espelho, depois do banho. Ainda há pouco me sentia demasiado perto de mim, incomodado pelo meu excesso de presença, quando um frágil aracnídeo patinava sobre a minha pele aquosa… Parece uma metáfora, isto das aranhas, mas não é. É um acontecimento pleno. Se o desfile de assédios que passeia pelas notícias nos incomodasse tanto quanto uma aranha, talvez desejássemos mais intensamente agitar as águas do pântano. Talvez reivindicássemos mais o inalienável direito à consciência, à inscrição. À vida antes da morte.


*Desejo Crónico é um conjunto de crónicas produzidas no contexto da Oficina de Leitura/Dramaturgia do projeto "Inscrição" da Terceira Pessoa. A oficina tem orientação de Diogo Martins e envolve um grupo pessoas da comunidade em torno do livro "Portugal, Hoje: o medo de existir" do filósofo português José Gil.

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