Desejo crónico*
Habituar-me
a habitar-me
Primeiro, as aranhas. Imagino uma banheira cheia
de água e o meu corpo inteiramente imergido, à exceção da cabeça que, de fora,
vigia tudo, distante e relaxada. É um banho, só isso, e a água jaz quente,
uterina. De súbito, reparo numa aranha que pousa sobre a água, e isso
perturba-me. Não tocou a minha pele diretamente, mas uma água que, de facto,
figura como uma extensão de mim, um prolongamento epidérmico. Há, por assim
dizer, uma pele da água que inscreve, aumentando, a potência topológica do meu
corpo, deste invólucro de pele que me singulariza e me torna evidente, uma
abertura e, em simultâneo, um ecrã. A aranha pousa, portanto, também sobre mim,
porque entre mim e a água emergiu essa terceira pessoa, um espaço de tensões e
nervosidades que me faz crer que o meu corpo é ainda maior do que aquilo que
imaginava. Talvez seja isso a alma ou a iluminação de um sentido profundo,
qualquer coisa que, para sentir que existe, não se sabe dizer o nome.
O exemplo da aranha é uma imagem de José Gil,
filósofo português. Ocorre a meio do livro Movimento
Total. O Corpo e a Dança (Relógio D’Água, 2001), que, como o título sugere,
explora a dimensão performativa dos corpos e dos gestos. De que forma é isto –
aranhas, perturbações, corpos, dança – relacionável com o projeto “Inscrição”,
que se pretende desenvolver em torno do livro Portugal, Hoje: O Medo de Existir, do mesmo autor? Inscrever,
refere José Gil, significa produzir real: um determinado evento inscreve-se no
real se devir acontecimento, se possibilitar a comunicação entre os indivíduos
de tal forma que o discurso os afeta, os transforma e lhes aumenta a potência
de vida, o conatus de Espinosa.
Inscrever consiste em dar à visibilidade e à imanência daquilo que somos – corpos
percetíveis em ação num espaço sensível comum (a casa, a rua, a praça pública,
a sociedade) – uma iluminação que não ofusque a (nossa) clarividência, mas que
proporcione, ao invés, um sentido de inclusão na vida. É o contrário do medo de
existir.
Portugal, sabe-se, enquistou-se ideologicamente
com a infinita pequenez do salazarismo. Pensar em ponto pequeno, em reduzidas
escalas, prudência cautelosa, resignação servil, instilando o medo de provocar
ondas sísmicas num simples copo de água: existir é perturbar o outro, é
tornar-me demasiado próximo, constituindo-me como possível ameaça. Ter medo de
existir é recear que os meus desejos façam desabar o mundo. Privar-me deles é
matar o espírito: o mesmo que encolher os ombros, hoje, perante o telejornal ou
saltitar entre as notícias – cortes nas pensões, destruição da escola pública,
silenciamento das contestações sindicais, das irresponsabilidades dos
governantes… Entre paroxismos e o absoluto descaramento entre aquilo que um
político diz e a realidade social que desdiz a palavra do político
(imagens-nuas), eis que surge a mais inconsciente forma de não-inscrição: “é a
vida!” Como um desabafo inconsequente, um espreguiçar matinal, um café ao fim
do almoço: é a vida, sim, mas uma vida que abre um enorme buraco negro sobre a
superfície do real, uma “força entrópica”, segundo Gil, que esvazia cada um dos
escândalos governamentais do seu punctum
de inadmissibilidade. Como um ecrã preenchido por múltiplos brancos, esboços
ténues, formas sonâmbulas: “É a vida lá fora, não há nada a fazer, é assim,
vivei com paz e serenidade, não há nada a temer, é lá longe que tudo acontece…”
É lá longe… o meu corpo, já ali (jaz ali), na
superfície embaciada do espelho, depois do banho. Ainda há pouco me sentia
demasiado perto de mim, incomodado pelo meu excesso de presença, quando um
frágil aracnídeo patinava sobre a minha pele aquosa… Parece uma metáfora, isto
das aranhas, mas não é. É um acontecimento pleno. Se o desfile de assédios que
passeia pelas notícias nos incomodasse tanto quanto uma aranha, talvez
desejássemos mais intensamente agitar as águas do pântano. Talvez
reivindicássemos mais o inalienável direito à consciência, à inscrição. À vida
antes da morte.
*Desejo Crónico é um conjunto de crónicas
produzidas no contexto da Oficina de Leitura/Dramaturgia do projeto
"Inscrição" da Terceira Pessoa. A oficina tem orientação de Diogo
Martins e envolve um grupo pessoas da comunidade em torno do livro
"Portugal, Hoje: o medo de existir" do filósofo português José Gil.

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