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| Tarkovski, Nostalghia |
INSCRIÇÃO: selo, marca, timbre,
presença. O corpo que habitamos é uma inscrição. Somos essa inscrição pelo
simples facto de existirmos. Eu sou um corpo que habito sendo esse corpo,
ocupando um espaço, fazendo do lugar uma extensão de mim, preenchendo-o com
sentido, num complexo sistema simbólico, onde circulam afetos. Tudo o que
mitigar a presença de mim a mim cria uma não-inscrição, ausentando-me,
colocando-me num jogo de presença intermitente. Esboroa a minha vida (e nem dou
bem conta do que a morte me faz, lentamente, dia a dia, roendo-me devagarinho
por dentro dos corpos de quem mais amo). Vejo com olhos toldados por nevoeiro.
Várias camadas de nevoeiro, névoa sobre névoa. O meu corpo tem uma sombra, que
é branca. Uma sombra branca. Será que existo ou sou apenas um cadáver adiado
que respira? Desligo a televisão. Desligo-me dela. Abraça-me, aperta-me os
ossos. Tenho medo de não sentir mais nada. Vou dizer de cor o que li ontem,
escrito por José Tolentino Mendonça: “Acreditas na vida antes da morte?”
por: Diogo Martins

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