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Edgar Martins
Sem Título, 2008
Fotografia, 90,5x125,5cm (Ed. 1/3)
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Gesto, um acontecer
No
princípio não era o Verbo. Tinha que ser mais do que isso, para lá do audível,
do que pode ser pronunciável. Para lá de qualquer imagem, signo, marca
delimitada por formas e figuras. Além de qualquer rosto que, pela sua evidência
nua, tende forçosamente a exaurir todos os outros rostos. O rosto manifesta-se
pela potência do negativo que diferencia e se instala pela diferença. Tinha de
ser mais, bem mais.
Talvez no
princípio tenha sido o gesto. O movimento, o vestígio inefável de uma ausência
que se cumpriu e que passou, como uma ave-relâmpago. No princípio era o
movimento, negando, de súbito, qualquer origem, qualquer ponto preciso de onde
uma árvore brotasse como metáfora do mundo ou princípio de vida. Não haveria
ponto algum, mas apenas a linha, uma fuga, uma brecha por onde todo o vazio se
enchesse de mais e mais vazio, uma foz onde desaguassem todos os relâmpagos,
todas as asas, todos os dedos vorazes a escavar a vertigem e o infinito da
vertigem. Dedos a desenterrar cada vez mais o desejo do desejo do desejo de
mais e mais vazio, sobre o qual, como o branco da página, se projetassem cada
vez mais tensões e energias, mais estrelas, galáxias inteiras numa só célula de
um corpo, um amplo corpo que, no relancear de um gesto, como que abrindo uma
manhã inteira rosando um ombro, aí, de repente, se desenhasse um outro gesto, o
mesmo gesto devindo outro, um continuum, uma osmose, um abraço.
Como que
pressentindo que um abraço é ficar de frente à profunda intolerância de um
enigma. Essa contínua rasteira que nos faz tropeçar passo sim, passo não. Esse
gesto que não conduz a nenhum lugar, a nenhuma praia, a nenhum deserto, mas um
gesto que acontece no seu acontecer de ser gesto e que, só por isso, nesse
fôlego móbil que dá balanço ao ar, fazendo-o tremer de sopro, como uma vela de
navio acesa de côncavas aragens, de ventos redondos de ar, só por isso faz com
que o dia tenha transpirado sentido. A certeza sanguínea de ter sido mais dia
do que o dia que o calendário se limita condescendentemente a prometer.
Diogo Martins (Pesquisa e Dramaturgia)

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