terça-feira, 4 de março de 2014

INSCRIÇÃO | OFICINA DE TEATRO | DRAMATURGIA


Edgar Martins
Sem Título, 2008
Fotografia, 90,5x125,5cm (Ed. 1/3)
Gesto, um acontecer

No princípio não era o Verbo. Tinha que ser mais do que isso, para lá do audível, do que pode ser pronunciável. Para lá de qualquer imagem, signo, marca delimitada por formas e figuras. Além de qualquer rosto que, pela sua evidência nua, tende forçosamente a exaurir todos os outros rostos. O rosto manifesta-se pela potência do negativo que diferencia e se instala pela diferença. Tinha de ser mais, bem mais.
Talvez no princípio tenha sido o gesto. O movimento, o vestígio inefável de uma ausência que se cumpriu e que passou, como uma ave-relâmpago. No princípio era o movimento, negando, de súbito, qualquer origem, qualquer ponto preciso de onde uma árvore brotasse como metáfora do mundo ou princípio de vida. Não haveria ponto algum, mas apenas a linha, uma fuga, uma brecha por onde todo o vazio se enchesse de mais e mais vazio, uma foz onde desaguassem todos os relâmpagos, todas as asas, todos os dedos vorazes a escavar a vertigem e o infinito da vertigem. Dedos a desenterrar cada vez mais o desejo do desejo do desejo de mais e mais vazio, sobre o qual, como o branco da página, se projetassem cada vez mais tensões e energias, mais estrelas, galáxias inteiras numa só célula de um corpo, um amplo corpo que, no relancear de um gesto, como que abrindo uma manhã inteira rosando um ombro, aí, de repente, se desenhasse um outro gesto, o mesmo gesto devindo outro, um continuum, uma osmose, um abraço.

Como que pressentindo que um abraço é ficar de frente à profunda intolerância de um enigma. Essa contínua rasteira que nos faz tropeçar passo sim, passo não. Esse gesto que não conduz a nenhum lugar, a nenhuma praia, a nenhum deserto, mas um gesto que acontece no seu acontecer de ser gesto e que, só por isso, nesse fôlego móbil que dá balanço ao ar, fazendo-o tremer de sopro, como uma vela de navio acesa de côncavas aragens, de ventos redondos de ar, só por isso faz com que o dia tenha transpirado sentido. A certeza sanguínea de ter sido mais dia do que o dia que o calendário se limita condescendentemente a prometer.

Diogo Martins (Pesquisa e Dramaturgia)

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